CIDADES E CONSTRUÇÕES

Na costa se usava adobe argiloso (tijolo de barro mesclado com um pouco de palha secado ao sol) e quincha (cana e barro) nas casas comuns. Na serra, o material era de pedra. Mas ambos eram usados nos dois lugares. Os tetos de palha eram revestidos com mantas de pluma. Suas construções são mais fortes que as castelhanas, resistindo bravamente aos terremotos que arrasam as vilas coloniais. As ruas das cidades eram estreitas e a água era encanada.

As casas da nobreza consistiam de complexos retangulares, marcados por um muro alto, que encerravam uma série de quartos. Havia um só acesso a estes quartos, um portal que conduzia a uma espécie de pátio de distribuição.

As vivendas dos camponeses consistiam de um só quarto com portas estreitas e janelas pequenas, quando havia. No interior havia nichos e os objetos domésticos eram escassos. Não havia assentos e se dormia no chão sobre esteiras. As roupas eram penduradas nas paredes, os utensílios eram guardados na cozinha, que era uma pequena choça adjacente.

A tiana (assento de madeira talhada em uma só peça) era usada apenas pela nobreza. Não era comum o uso de colunas e, principalmente nos templos, proliferavam as portas cegas (sem vão real), construídas para os espíritos. Os nichos, portas e janelas eram de formato trapezoidal.

As principais unidades de uma cidade são o ushno (edifício piramidal com base em plataforma retangular, para fins religiosos), acllahuasi (onde moravam as mulheres escolhidas), sucre (plataformas de cultivo), kallanka (edifícios espaçosos destinados a diversas funções), masma (casa com dois recintos), kancha (construções diversas que formam uma mesma unidade), huayarana (casa de três paredes e uma coluna para sustentar o teto) e kollka (depósito).

Cusco

O centro do Império. Os templos eram de muros lisos de pedra e perfeitamente construídos. Suas juntas se encaixam sem que seja possível passar um fio de cabelo e não contêm argamassa. No centro das ruas, um conduto de água coberto com louça de pedra abastecia toda a população. Nos caminhos do Império, aquele que ia para Cusco devia reverenciar aquele que voltava, só porque havia estado na cidade dos deuses.

Coricancha: formado por quatro casas de tamanho médio cujas paredes e vigas foram cobertas de ouro. Na mais bonita estava o Sol, representado por uma grande figura de ouro maciço com incrustação de pedras preciosas, um disco de meio metro de diâmetro que desapareceu durante a conquista.E também o Punchao, uma estátua do sol com figura humana e do tamanho de um homem, trabalhada em ouro e pedras preciosas, e o rosto rodeado de raios. No Jardim do Sol, tudo era de ouro e pedras preciosas: o terreno, os caracóis, lagartixas, ervas e plantas, árvores com frutos de ouro e prata, milharal com espigas de ouro, mariposas, vinte lhamas de tamanho natural. O santuário era formado por várias capelas dedicadas ao culto. No Templo do Sol ficavam os restos mumificados dos Incas. O Templo da Lua servia para reunir as múmias das Coyas (mulheres dos Incas). Em outras seções se venerava o Relâmpago, o Trovão, o Arco-Íris, enquanto que na sala de sacrifícios eram colocadas as oferendas. Havia também um recinto reservado ao sacerdote.

Acclahuasi: cem vivendas internas para as mulheres escolhidas. Era proibida a entrada. Na colônia é um convento.

Huacaypata: praça traçada por Manco Cápac para que servisse de centro simbólico do Império. Frente a ela foram construídos os palácios de vários Incas e a acllahuasi. É a atual Plaza de Armas.

Sacsayhuamán: fortaleza/templo guardiã da cidade, no alto do morro que se ergue além da Huacaypata. Pode alojar um exército de cinco mil homens. Formada por três plataformas de mais de 300m de extensão, com muros simétricos e colossais em forma de zig-zag. A primeira plataforma chega a ter pedras de 360 toneladas, com 9m de altura e 10m de espessura. A segunda e terceira plataforma são um pouco menores. Há três portais que conectam as plataformas, e que seguem por uma grande escadaria. Há três torres no topo, sendo uma delas circular, que estão em ruínas na colônia.

Vale Sagrado

– Chinchero: palácios, sucres e uma fortaleza incaica rodeiam a cidade, de onde aparece o arco-íris. Na praça principal, há uma muralha de pedra lavrada com 10 nichos de 2m de altura e 1,50m de largura, que permanece intacta na colônia. O povo vive nas mesmas casas e continuam realizando a feira de trocas na praça, onde foi erguida uma igreja. Localizada na subida de uma colina, do outro lado fica o lago Puray.

– Pisac: conjunto de sucres, muralhas e cavernas, onde se encontra a torre de observação astronômica, o Intihuatana. Uma torre circular de onde se destaca uma rocha talhada com uma coluna de pedra que determina o curso do sol.

– Tampumachay: balneário do Inca, formado por quatro muros em forma de escada. Onde era praticado o culto à água. A água verte do segundo muro sobre um pequeno poço de pedra.

– Ollantaytambo: fortaleza a 2.750m, formada por monólitos de pedra rosada, com mais de 4m de altura. Aos pés da fortaleza, a cidade.

Mayao

Muralha de adobe e pedra de 66 km de extensão e altura média de 3m. Começa próximo ao mar e atravessa o vale do Santa. Ao seu largo, há 14 construções que parecem antigas guarnições.

Caminho do Inca

O caminho inca vence todos os obstáculos: a puna, as torrentes, os penhascos, os desertos, os bosques tropicais. Na planície, é largo. Nos vales, com largura para duas pessoas. Na costa, estava flanqueado por árvores e canais. Percorrem cerca de 40 mil quilômetros. O caminho também inclui túneis e atingem a altura de 4.300m. Foi traçado de forma mais reta possível, trabalhando a rocha em várias escadarias, recheando pântanos com pedaços de rocha, argila e galhos. Nos lugares mais importantes, usavam lajes de pedra. O caminho abrange quase todo o Império do Sol, de norte a sul, da costa à selva.

Tambos

Uma só habitação, com três portas na frente, que funcionava como estalagem, espalhados pelo caminho. Na média, ficavam de 20 a 30km um do outro. Era levado em consideração mais o tempo de caminhada do que a distância percorrida. Eram gratuitos aos funcionários do Império, mas era cobrada uma taxa dos mercadores e viajantes comuns. A conservação do tambo era feita pelas vilas próximas, sob responsabilidade do ayllu. Em cada tambo ficava um chasqui (mensageiro), que deveria receber a mensagem do chasqui que chegava e passar adiante. Como não havia escrita, essas mensagens eram orais. Os tambos também serviam como depósito de alimentos para abastecer as tropas do Império em suas campanhas.

Pontes

Havia três tipos de pontes: suspensas (pênsil, feita de fibra vegetal); de pilares de pedra; ou compostas de um cabo grosso preso nas árvores à margem do rio por onde corria uma grande cesta presa na corda por uma alça de madeira, onde cabia de uma a quatro pessoas. A cesta era puxada por uma segunda corda por pessoas na outra margem. A conservação das pontes seguia o mesmo modelo dos tambos.

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CULTO AO SOL

Os povos que habitavam a região possuíam uma religião fortemente estabelecida e organizada, confundindo-se inteiramente com o poder de seus líderes. A religião era a razão de tudo e tudo girava em torno dela: as festas, as conquistas, os tributos, as dádivas. Com os incas, o Sol passou a ser o grande Deus, o principal culto, seguido, mais cedo ou mais tarde, por todos os povos da região. Na colônia, o culto ao Sol e a crença nos diversos espíritos da natureza mantém sua influência na vida dos índios. Mas é uma época difícil, e a religião dos brancos surge forte, revela os antigos deuses aparentemente impotentes ante seu poderio, confunde suas mentes, transformam seus templos. Mesmo os raros sacerdotes que ainda mantém vivo o culto ao sol sofrem com a dúvida de toda uma nação: por que teriam seus deuses os abandonado?

O Mundo Espiritual dos Incas

Viracocha: divindade principal do Império, sem princípio ou fim. Criador dos outros deuses, homens, animais e plantas. Governava o mundo como o Inca. Havia vivido na terra para ensinar aos homens, mas deixou a tarefa de cuidar do mundo para os seres que estavam mais próximos desta realidade: o Sol e a Lua.

Inti: o Sol, primeiro dos deuses criados por Viracocha. É representado como um disco de ouro com raios.

Quilla: a Lua, mulher do Sol.

Illapa: o Trovão, irmão do Sol. Governa a chuva. Representado como homem enfeitado com reluzente vestido. Em uma mão leva um porrete, noutra uma funda. O relâmpago é o fulgor de seu vestido ao mover-se. O trovão é a descarga de sua funda.

Libiac: o Raio, governa a chuva junto com Illapa.

Pachamama: a Terra.

Mamacocha: o Mar.

Huaca: lugar de adoração, lugar santo ou santuário. Não se trata somente de templos, mas de qualquer objeto ou lugar de significação religiosa, seja um morro, uma sepultura, o lugar de uma batalha. Têm importância variada. Recebem (mesmo durante a colônia) venerações e oferendas, inclusive sacrifícios. Eram guardadas pelos sacerdotes.

Apachetas: são montes de pedra soltas que se encontram nas trilhas montanhosas, às margens dos caminhos difíceis, depositadas pelos viajantes solitários. Ao passar, os índios colocam uma nova pedra ou deixam uma pequena oferenda. Assim, afastam os espíritos demoníacos da região. Em algumas delas, os padres chegaram a sobrepor uma cruz.

O Mito de Viracocha

Com o dilúvio, tudo foi destruído. Viracocha guardou consigo três homens, e eles serviam ao Deus e o ajudaram a formar novos povos. De uma ilha chamada Titicaca, em meio ao Grande Lago, Viracocha tirou o Sol, a Lua e as Estrelas. Um dos homens, Taguapaca, lhe desobedeceu e foi amarrado numa balsa e lançado no lago. Acompanhado por seus dois criados, Viracocha se instalou em Tiahuanaco, onde foi construída uma cidade para ele. Neste lugar, esculpiu em cerâmica todas as nações que queria criar e as espalhou por toda a região. Depois de criar todos os povos, decidiu caminhar. Sem ser reconhecido, Viracocha foi hostilizado em sua primeira parada. Então, ajoelhou-se e ergueu as mãos e o rosto para os céus, fazendo descer um fogo que queimou todo o lugar. Os homens pediram perdão e foram atendidos. No lugar, restou um monte abrasado cujas pedras, mesmo as grandes, podem ser erguidas facilmente por um homem.       Chegando ao vale onde muito mais tarde os incas construiriam seu Império, Viracocha foi bem recebido. Viracocha prosseguiu seu caminho, instruindo as pessoas. Acabou chegando à Baía de Tumbez, onde se juntou a seus dois criados. Disse que deixaria este mundo, mas que enviaria seus mensageiros para que os amparassem e os ensinassem. Assim, junto com seus dois criados, partiu caminhando sobre as águas como se fosse espuma.

Culto e Ritual

O culto oficial era praticado nos templos. O mais importante era o Coricancha, em Cusco, chamado pelos castelhanos de Templo do Sol. Mas o Sol não era a única divindade adorada em seu interior. Certas partes do templo eram revestidas com lâminas de ouro. O teto era igual a todos os outros: coberto de madeira e palha. O templo tinha a imagem do Sol, uma espécie de mapa celeste e as múmias dos Incas. Um ritual bastante comum era o da adivinhação nos oráculos. Havia vários por todo o Império.

A parte principal do culto eram os sacrifícios. O de maior valor era o sacrifício humano, mas só ocorria em ocasiões solenes ou de grave perigo. As vítimas eram meninos de dez anos, fisicamente perfeitos. Às vezes se sacrificava um adulto em ação de graças, como numa vitória de guerra. Mais comuns eram os sacrifícios de lhama e cuy. Geralmente, já havia um número definido para cada ocasião. As lhamas escuras eram destinadas a Viracocha, as brancas ao Sol e as coloridas a Illapa. Os líquidos eram vertidos ao solo, os objetos jogados na água, a coca era enterrada e o resto se queimava. Nos sacrifícios, o fogo devia ser tomado de um braseiro próximo ao Templo do Sol, no qual sempre havia lenha ardendo. O sacrifício acontecia ao nascer do sol. Durante a cerimônia, comiam o sancu, pão de milho mesclado com o sangue proveniente dos sacrifícios.

Os incas tinham o seu conceito de pecado. Os Ichuris (confessores) eram os sacerdotes que estavam a cargo das huacas e impunham uma penitência, geralmente jejum ou rezas. Cumprida a penitência, o índio se banhava em água corrente. O jejum (de condimentos e abstinência sexual) era considerado de grande valor religioso e se praticava em diversos níveis.             Pecados mais graves: matar um ao outro fora da guerra, tomar a mulher alheia, usar ervas ou feitiços para o mal, furtar, descuidar do culto às huacas, importunar as festas, falar mal do Inca e desobedecer-lhe. O pecado se limitava à ação, não chegando ao desejo, à intenção.

Sacerdócio

Para ser sacerdote, a pessoa devia mostrar vocação. Podia ser por hereditariedade ou eleição. Alguém atingido por um milagre também era aceito, tanto homem como mulher. Os cargos religiosos mais importantes estavam nas mãos de parentes do Inca. Normalmente, ser sacerdote significava ser nobre. O culto era respeitado em todo o Império.

No topo estava o Huillac-Omo (cargo vitalício), que morava em Cusco e que só podia ser tio ou irmão do Inca. Presidia um conselho superior de nove sacerdotes de alta hierarquia (Tarpuntay). Os sacerdotes cuidavam dos diversos templos do Sol (cada um com uma acllahuasi correspondente) e lá viviam com sua família. Não eram celibatários. Também havia os sacerdotes que serviam como guardiões das huacas (Ichuri), cujo status dependia da importância da huaca. Os jejuns eram obrigatórios na esfera religiosa. Os sacerdotes trabalhavam de adivinhos e intérpretes de oráculos, e rogavam por colheitas abundantes e pela saúde do povo. As entranhas das lhamas eram as mais estimadas nos atos de adivinhação. A limpeza era o símbolo da purificação. Os sacerdotes tinham que se banhar e usar roupas limpas.

Fora os sacerdotes oficiais, muitas pessoas trabalhavam nos ayllu como adivinhos, curandeiros e bruxos. A feitiçaria popular era permitida, mas também severamente punida quando utilizada para o mal.

Medicina Mágica

A medicina era intimamente ligada à magia e à religião, costume que não se perdeu após a conquista. As enfermidades, segundo os curandeiros, são causadas por um pecado, pelo desprendimento do espírito do corpo, por um malefício cometido por um bruxo, ou coisas do gênero.

Os curandeiros deviam primeiro adivinhar a causa do mal para depois usar a magia e ervas medicinais. Havia intervenções cirúrgicas, como a trepanação, que consistia em abrir o crânio do doente. Com isso, acreditavam curar vítimas de fraturas ou ferimentos ósseos na cabeça e aliviar dores de cabeça e enfermidades mentais como a possessão demoníaca. Usavam instrumentos de bronze na cirurgia; a parte trepanada era coberta por um pedaço de mate e, às vezes, lâmina de metal. Colocavam algodão, vendas e gases nas feridas e usavam alguns narcóticos (coca e chicha) como anestesia. Algumas trepanações eram bem sucedidas. Já a amputação era usada em castigos, sacrifícios e necessidades médicas.

Coca

A folha de coca era mastigada com o objetivo de enganar a sede, a fome e o cansaço, além de ser considerada uma planta mágica. Assim, além de ser mastigada para estimular a resistência física, era mastigada para fazer adivinhações, ter visões e entrar em transe durante as cerimônias especiais nas quais o sacerdote obtém contato com forças sobrenaturais. O uso da coca era regulamentado pelo culto religioso. Porém, durante a colônia, o aspecto religioso da coca se perdeu e os índios a utilizam indiscriminadamente com o objetivo de resistir ao esforço nas minas.

Culto aos Mortos

Os incas acreditam na vida após a morte. Quando morria um curaca, morria também suas mulheres, enterradas junto com ele. Também deviam morrer os principais criados e servidores. Este costume não era obrigatório e desapareceu com a ação da Igreja nas reduções indígenas.

Os incas têm o costume de proporcionar aos defuntos alimentos e vestidos, que são para a sua longa viagem ao mundo dos mortos, localizado no interior da terra. Alguns espíritos escolhem como domicílio objetos naturais, no intuito de continuar a influenciar o destino de seus descendentes.

Os povos das cordilheiras e da costa possuíam o hábito de mumificar seus mortos, o que foi feito como todos os Incas, exceto com Atahuallpa e Huascar. Curiosamente, entre as múmias encontradas em Coricancha, há uma de um homem com barba ruiva. As múmias do deserto costeiro, devido ao clima, permanecem inalteradas.

Festividades

As festividades se sucediam todo mês e consistiam em beber e comer em abundância, mascar coca com permissão superior, e várias danças. Todo mês eram sacrificadas 100 lhamas. Com a conquista e a chegada da Igreja, os incas passaram a comemorar suas festas de forma disfarçada, mesclando-as com as festas católicas. A Igreja, consciente disso, estimulou ainda mais esta aproximação, pois a viu como uma forma eficaz de estabelecer a sua religião.

Capac-Raymi (dezembro) – iniciação dos jovens incas (furavam as orelhas, eram açoitados com fundas e tinham o rosto pintado com sangue).

Inti-Raymi (junho) – maior festa do Império (e continua resistindo bravamente), durante o solstício de inverno. Na véspera, apagavam os fogos em toda extensão do Tahuantinsuyo. Em Cusco, na grande praça se concentravam todas as celebridades. Nas sombras, a multidão esperava a aparição do Deus Sol, com grande respeito, descalços, em profundo silêncio. Os nobres, generais e altos funcionários imperiais, empunhando seus escudos e cetros, jejuavam por três dias. O significado da festa era agradecer ao Sol pelas colheitas no ano porvir, tentando deter seu afastamento da Terra com sacrifícios. Com o primeiro raio da aurora, se escutava o alarido vindo das montanhas. Começavam a cantar, puxados pelo Inca. A multidão saía ao Sol com os braços abertos. Um bracelete de ouro côncavo era colocado contra o Sol e refletido sobre um chumaço de algodão, que se incendiava. O fogo sagrado era levado para Coricancha, onde era conservado pelas acllas. O Inca esvazia um vaso de ouro cheio de chicha no centro da praça. Com outro vaso, dava um gole e o repartia entre a nobreza. Depois, todos desfilavam até Coricancha para cultuar o Sol. Na praça é feito o sacrifício de uma lhama pelo Tarpuntay. Os vaticínios são feitos pelos sacerdotes que os comunicam ao Huillac-Omo, que faz a interpretação e a comunica ao Inca, já no poente. O Inca ordena a retirada e libera a festa, que dura vários dias.

Published in: on 12 de março de 2010 at 1:45  Comments (3)  

ECONOMIA DO TAHUANTINSUYO

Agricultura

Construção de plataformas de cultivo, irrigação artificial, uso de fertilizantes e implementos agrícolas, escavação de poços em desertos. Usavam cobre quase da dureza do aço. Os canais de irrigação chegam a ter 100 km de comprimento.

As plataformas de cultivo (sucre) foram construídas em ladeiras e morros, em forma de escadarias, por mais escarpados que fossem. Assim se evitava a erosão do solo e aumentava a superfície cultivável. São formadas por um muro de contenção feito de pedra e de fácil escalada. A terra é plana. Estas plataformas estavam todas à disposição depois da conquista castelhana, mas muito pouco foi aproveitado.

Criação de gado

As criações eram de lhamas, alpacas, patos, cuyes, guanacos e vicunhas. O consumo de carne não era o forte dos índios. O leite, exceto o materno, não era consumido, nem se produzia derivados. O cuy, além da carne, era utilizado em rituais e oferendas a deuses e espíritos.

A lhama e a alpaca eram domésticas (a maioria pertencia ao governo), enquanto a vicunha e o guanaco eram silvestres. A vicunha era caçada pela sua lã sedosa. Depois de tosquiada, era solta. O guanaco era estimado por sua carne. A lã da vicunha e da alpaca era usada para confeccionar os tecidos mais finos e luxuosos. A lã da lhama era a mais utilizada na confecção de roupas e apetrechos, juntamente com o algodão. Um homem poderia ter mil lhamas em sua criação. As lhamas eram separadas pelas cores: brancas, negras, pardas e moromoro (várias cores).

Além da lã, a lhama fornecia carne e era muito usada como animal de carga e em sacrifícios religiosos, onde os adivinhos liam as suas entranhas. Sua carne era consumida como carne seca (secada ao sol e desidratada), pois se conservava facilmente. O sangue era usado para o molho. Do couro do pescoço eram feitos sapatos e sandálias. O resto era pra fazer cordas e ataduras. O excremento era usado seco como combustível nas grandes altitudes, carentes de árvores e lenha. Importante para diversos sacrifícios.

Mercado

Não havia moeda, era tudo feito na base da troca. Ou produto com produto, ou produto com trabalho, ou trabalho com trabalho. Era proibido trocar os presentes do Inca. Era permitido trocar o excedente da produção familiar por produtos de valor equivalente ou produtos de outra região. Dentro do ayllu praticamente não havia troca. A produção era voltada para a comunidade e todos possuíam mais ou menos a mesma coisa.

O Inca não controlava o comércio, mas os mercadores tinham impostos para cruzar determinados caminhos, que eram cobrados pelos vigilantes das estradas. Só não pagavam este imposto os soldados e carregadores, que até recebiam comida e bebida. Havia controle de ouro, prata e pedras preciosas. Caso as possuísse, o mercador era obrigado a dizer a sua procedência. Assim eram descobertas novas minas.

As trocas eram feitas no catu (mercado), geralmente na praça da cidade. A feira acontecia três vezes por mês a cada nove dias. As comunicações oficiais eram feitas nos dias de feira para que tivessem maior alcance.

Caso de troca: um mercador trocou, na costa, um saco de batatas por 25 libras de coca. Na serra, trocou 3 libras de coca por um saco de batatas.

Comércio na selva: os índios da selva levavam papagaios, canoas de cedro, cacau, borracha, ervas medicinais, mulheres cativas. Os índios da serra se instalavam em pontos já conhecidos, às margens do rio, e esperavam eles chegarem de canoa. O encontro era festejado, mas o comércio era silencioso e só começava na manhã seguinte. Esta feira durava de 6 a 8 dias.

Tributos

Havia terras para o Inca, para o governo, para as huacas (templos), para o ayllu, para a Coya. As terras das huacas eram cultivadas para oferendas e celebrações de ritos e festas. O camponês era dono de seu pedaço de terra, mas pagava tributo. Com o tributo se nutria os soldados, os trabalhadores das minas e os honoráveis. O excedente era guardado. O mesmo era feito com os objetos. Ouro e metais eram de propriedade estatal ou sacerdotal. Havia a prestação de trabalho gratuito, cumprido em forma de turnos. Muitos índios não pagavam seu tributo com produtos de sua parcela de terra, mas através da prestação de serviços.

Produtos Agrícolas

Abacate (terras quentes), Aipo (costa e serra), Algodão (costa e selva alta), Ameixa de Frade (vales quentes da costa e da serra), Batata (regiões altas e frias, abundante na serra), Batata-doce (costa e vales da serra), Coca (várias regiões), Goiaba (altitude média), Lúcuma (fruta dos vales da costa e da serra), Mandioca, Milho (abundante em qualquer região), Oca (raíz comestível das regiões altas de onde tiravam o açúcar), Pallar (sementes comestíveis da serra e da costa), Pepino (costa e vales), Pimentão (vales da costa e da serra), Pinha e Amendoim (costa norte e florestas), Poto e Mate (fruto em forma de garrafa ou prato que servem de recipientes), Quinoa (único grão das regiões frias, bastante nutritivo), Rocoto (tipo de pimenta da costa, vales da serra e floresta), Tabaco, Trigo (altiplano) etc.

Derivados: Chicha (bebida fermentada do milho), Chuño (batata desidratada para aumentar a conservação), Cahui (espécie de chuño, feito da oca).

Published in: on 12 de março de 2010 at 1:44  Comments (3)  

COSTUMES INCAICOS

Família

Os casais eram normalmente do mesmo ayllu, formados através de pacto matrimonial. O pretendente devia prestar serviços aos pais da noiva durante o servinacuy (quando o rapaz tem que se mostrar a altura do compromisso), recompensando-os com parte de seu trabalho. O servinacuy ainda persiste na colônia, mas é reprovado pela Igreja, que tenta dar um fim a este costume.

A família era monogâmica e o homem podia matar a mulher surpreendida em flagrante adultério. Ainda que timidamente, havia prostituição e liberdades especiais durante as festas. A relação com os filhos era rígida e austera, com respeito irrestrito. Os anciões mereciam o respeito dos adultos. A viúva tinha que arrastar o luto por dois anos. A separação era algo raro. A mulher preparava a comida, ajudava nos momentos de maior necessidade nas colheitas e cultivo da terra e na educação das crianças, e fiava até mesmo andando. Era considerada uma subordinada. A mãe era dispensada do trabalho até os filhos fazerem cinco anos.

Idade e Atribuições

Não se usava a idade biológica, mas sim a capacidade física e de trabalho. As crianças ajudavam em pequenas tarefas, como fazer plumagem, transportar água, caçar pássaros, colher flores e plantas. As meninas aprendiam a tecer. Os adolescentes eram aprendizes e serviam à comunidade, guardando o gado e vigiando as plantações. As jovens estavam em época de casar, e também podiam ser escolhidas para as Acllahuasi. Os jovens ajudavam os guerreiros, serviam de pastores ou mensageiros. Os homens adultos eram soldados e trabalhadores. As mulheres teciam e também faziam todo tipo de trabalho. Os mais velhos sempre procuravam ser úteis à sociedade, de acordo com sua capacidade, e recebiam amparo do governo. Os deficientes faziam pequenos trabalhos e casavam entre si para aumentar a população.

Vestuário

Vestuário masculino: simples e de confecção familiar. A roupa exterior era o unco (muito usado na colônia nos campos e montanhas), um camisão de lã sem manga que chega aos joelhos; a huara, um pano que cobre do tornozelo ao joelho; e a chuspa, uma bolsa para guardar folhas de coca e fiambre (carne preparada para se comer fria). O normal era caminhar descalço. As sandálias eram mais usada pelos nobres.

Vestuário feminino: usavam o anaco, um pano de tela retangular que envolve o corpo desde as axilas até o tornozelo, seguro na cintura por uma faixa decorativa; a lliclla, espécie de manto que cobre os ombros e as costas até os tornozelos; e o tupu, alfinete de metal com um disco ornamental que segura a manta na frente.

Os homens usavam cabelos longos com franjas e as mulheres os dividiam no meio, usando cabelos soltos ou com tranças múltiplas. Ainda havia o chuco, ornamento de cabeça que distinguia os diversos grupos étnicos.

Normas e Leis

Havia diferença entre nobreza e povo. Toda a violação de uma lei era considerada desobediência ao Inca, portanto, era sacrilégio. O castigo era severo. A maioria das normas vinha antes mesmo dos incas. Os juízes eram os curacas, os Apu e os Tocricoc. Mas havia inspetores encarregados de vigiar esses funcionários. O próprio Inca julgava certos crimes e delitos, especialmente os cometidos pela alta nobreza. As sentenças não tinham apelação e as penas eram logo aplicadas. Em alguns casos era concedido o perdão.

Não havia prisão para o homem do povo. Os nobres indiciados eram conduzidos para uma casa especial onde eram vigiados enquanto durava a investigação. A pena dos nobres era menor, pois se considerava que o nobre sofria mais com a reprovação pública do que um homem do povo.

Os crimes: mentira, vadiagem, roubo, assassinato, libertinagem. A poligamia só era permitida aos nobres. Os crimes mais graves eram aqueles cometidos contra o Inca, o Império e a Religião, como traição, desrespeito às normas de veneração, roubo nos campos do Inca, atos de sabotagem, sedução de uma aclla. A reincidência era punida com pena cada vez maior, chegando a merecer pena de morte numa terceira vez.

As punições: geralmente os réus eram açoitados. A preguiça era considerada grave e recebia muitos açoites. Depois, o furto de patrimônio imperial ou religioso, punido com pena de morte. O assassino poderia ter o atenuante no caso de legítima defesa ou de ter matado a mulher adúltera. Produzir morte por envenenamento era gravíssimo. O adultério e o estupro recebiam também a pena de morte. Nos delitos muito graves, o condenado era fechado na Samcahuasi (prisão subterrânea), onde havia feras e animais peçonhentos. As penas de morte eram executadas a golpes de macana no Huinpillay (lugar de suplícios). Também se usava o apedrejamento, o exílio e trabalhos forçados nas minas.

Hilmaya: castigo usado para os nobres. Deixar cair da altura de um metro uma pedra sobre o réu. Os que não morriam eram curados, mas praticamente todos ficavam com danos mentais ou físicos irreparáveis, até mesmo através de encantamentos.

Tormento de guerra: a pessoa era obrigada a retirar sua própria sobrancelha e pestanas.

Educação

Os costumes, as normas de conduta e o treinamento para o trabalho eram dados pela família. A nobreza recebia educação organizada, necessária para desempenhar cargos diretivos.

Amautas: eram os filósofos. Sábios e mestres, autorizados a castigar seus pupilos, aplicando açoites uma vez por dia na planta dos pés.

Harauec: eram os poetas, muito estimados por todo o Império. Tinham consigo muitos discípulos, principalmente de sangue real.

Yachay-huasi: a casa do saber, em Cusco. O ensino durava quatro anos: Quipologia, Religião, Quechua e História.

Quipu

Sistema de registro incaico através de cordas. Do cordão principal pendiam, como uma franja, barbantes de comprimentos diferentes cuja cor variava segundo a natureza dos objetos que deviam ser contabilizados. Os nós, de acordo com sua grossura e disposição, designava as unidades, dezenas, centenas e milhares. As cores também podiam designar temas, o que transforma os quipus também em registros históricos. Quipucamayoc é a pessoa habilitada para ler os quipus. Porém, cada um possui o seu próprio código, que vai sendo passado de geração a geração. Assim, cada quipucamayoc só é capaz de ler o seu próprio quipu, como se cada um falasse uma língua diferente.

Poesia e Música

Poesia era uma tradição oral, já que não havia escrita, onde predominava os temas mitológicos. Os músicos usavam tambores grandes e pequenos, antara (flauta de pan, composta por uma fila de 3 a 15 tubos de cana oca ou de cerâmica), sicu (antara grande, de duas ordens de sete tubos, chegando a um metro), pinkullo (flauta de cana ou de madeira de até 1,10m) e a quena (flauta comprida de osso ou cerâmica, de até 30cm, só tocada por homens).

Published in: on 12 de março de 2010 at 1:43  Comments (3)  

SOCIEDADE INCAICA

Inca

O grande chefe, originário da família Ayar. Os súditos acatavam com submissão suas ordens. Os que o rodeavam demonstravam reverência e humildade. Era conduzido numa liteira (uma espécie de trono carregado pelos servos). Ao passar, um grupo se antecipava limpando o caminho.

Vestia o cumpi, feito de finas telas de tapeçaria, usava um tocado e um cetro imperial, o Topa Tauri. O Inca casava com uma mulher apenas, a Coya, mas lhe era permitido ter várias concubinas. Da Coya devia nascer o Inca herdeiro, mas isso nem sempre era seguido à risca. No fim, levava vantagem o mais preparado para assumir o governo. O governo era centralizado. Os filhos dos Incas eram educados para terem absoluto auto-controle, para demonstrarem uma inquebrantável impassibilidade. Todo Inca devia manter uma aura de intocabilidade. Os descendentes do Inca deviam conservar a múmia do governante falecido e preservar sua memória através de cantigas, pinturas e histórias. Saíam com as múmias às ruas durante as festas, cercadas de luxo, chegando até mesmo a manter influência política depois da morte.

Nobreza

Auto-suficiência, consciência de classe predestinada a governar. Vestem-se suntuosamente, exibem suas insígnias familiares e usam as orejeras, adornos esféricos de cana pendurados na orelha. Quando os castelhanos conquistaram o Império, chamaram os nobres incas de Orejones. Usavam cabelo curto (sinal de nobreza). A eles era permitida a poligamia.

No Império do Sol ou se nascia nobre ou campesino. Nem o casamento poderia mudar isso. Os casos eram raros, geralmente ligados a heróis e grandes feitos, na maioria militares. Os homens foram criados em classes separadas, portanto, os nobres assim o são por direito divino.

O povo acreditava que o Inca era semidivino, filho do Sol. Portanto, no Tahuantinsuyo não havia luta de classes, apenas rebeliões étnicas, ou seja, lutas entre os incas e os povos conquistados. A nobreza era dividida entre nobreza governante e nobreza sacerdotal.

Nobreza governante: composta pela família do Inca e seus descendentes, incluindo a Coya. Também mereciam certo privilégio os incas nascidos em Cusco e nas cidades próximas, compondo os cargos políticos subalternos em qualquer parte do Império. A nobreza de cada cultura assimilada ao Império era respeitada e mantida, desde que não tenham se mostrado rebeldes. E ainda aqueles que se destacaram militarmente ou em grandes obras arquitetônicas.

Nobreza sacerdotal: assegurava o poder político por meio de uma doutrina rígida e inquestionável. Responsáveis pelos altos cargos religiosos. Huillac-Omo, o sacerdote principal, deveria ser o irmão ou tio do Inca. Os demais eram responsáveis pelos templos e lugares sagrados.

Aclla ou Escolhidas

Grupo especial vinculado parcialmente à classe sacerdotal. As jovens escolhidas eram selecionadas periodicamente por funcionários nas diversas aldeias do Império. As meninas eram escolhidas pela sua beleza aos 12 anos, em sua maioria filhas de curacas. Iam para um convento (acllahuasi), onde aprendiam a tecer, cozinhar, fiar e atender outras ocupações destinadas à nobreza.   A maior parte o Inca entregava como esposa ou concubina a nobres e valorosos guerreiros, a quem também era permitida a poligamia. Também eram utilizadas em alianças políticas. Fora as filhas e irmãs do Inca, que desfrutavam de uma situação privilegiada, as demais acllas significavam para o Império força de trabalho para a fabricação de tecidos, preparação de bebidas para as festas religiosas e para cumprir com a reciprocidade, quando se necessitava de esposas para os senhores com quem o Inca desejava consagrar-se. Apenas um pequeno grupo permanecia para sempre na acllahuasi, cuja missão era instruir as noviças, administrar o convento e servir de sacerdotisas no culto ao Sol. As acllas perdiam qualquer ligação com seu lugar de origem e gozavam de um status mais elevado que a maioria do povo.

Os Honoráveis

Não eram nobres, mas possuíam uma habilidade especial. Eram os arquitetos, ceramistas, artesãos, mercadores e pequenos funcionários. Superiores aos agricultores, uma espécie de classe média. Os artesãos não podiam trocar de ofício nem servir o exército. Podiam ser autônomos ou estatais.

Mercadores: basicamente originários da costa, onde era uma profissão normal. Na serra, as famílias estavam acostumadas a satisfazer suas necessidades mediante o próprio trabalho. A existência de mercadores na costa era devido ao clima desértico, à impossibilidade de uma região produzir um determinado produto. Eles serviam de contato com os povos distantes. Havia uma casta de mercadores.

O Povo

São os camponeses. Como não havia dinheiro, o tributo era pago com trabalho, normalmente agrícola. A única recompensa era a segurança de subsistência em épocas de seca, garantida pelo tributo pago durante o ano.

Purej: chefe de família. Cultivava a terra destinada à subsistência de sua família e cultivava a parcela destinada ao Estado.

Os Pescadores

No mesmo nível dos agricultores, mas pertenciam a uma classe distinta. As praias não eram abertas, pertenciam ao ayllu. Este costume persistiu um bom tempo durante a Colônia. Não possuíam terras de cultivo, viviam em povoados à margem das aldeias e só casavam entre si. A divisão com os agricultores era acentuada. Mantinham com eles estreita relação, mas tinham seus próprios curacas. No litoral norte se usava como transporte balsas de troncos de árvores. Na costa central, os caballitos de totora. No sul, peles de lobo-marinho. Na costa ainda havia os salineiros, que tinham uma ocupação exclusiva e especializada.

Yana-Cuna

Classe hereditária de servos muito próxima à escravidão. Não podiam passar de um senhor a outro. Só o Inca podia fazê-lo. Serviam em tarefas domésticas ou cultivavam a terra de seus senhores. Acompanhavam o exército como carregadores. Não pagavam tributo e não eram incluídos nas estatísticas. Não faziam trabalho social, pois o produto era exclusivo do seu senhor. Todo integrante de um ayllu poderia, por castigo, ser reduzido a yana-cuna por vontade do Inca. Não se pode chamá-los de escravos, pois tinham categorias complexas. No final do Império, havia até curacas yana ou funcionários do Império. Enquanto os mitmac mantinham seus laços de origem, os yana perdiam toda a comunicação com seu ayllu.

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TAHUANTINSUYO

O Tahuantinsuyo ou Império do Sol (como chamado pelos conquistadores) no seu auge, que coincidiu com a chegada dos castelhanos, se estendeu do Equador até o sul, cessando sua expansão no confronto com os Araucos e com as tribos da selva, a leste. Sua população atingiu cerca de 10 milhões.

O Império era dividido em quatro regiões (suyo), que por sua vez eram dividas em províncias (huamani), respeitando o máximo possível as antigas fronteiras entre as diferentes culturas que o compõem. As províncias eram divididas em setores (sayo), que eram integrados por um número variável de Ayllu (comunidade). Os membros do ayllu eram donos de um determinado território (marca), dentro do qual cada chefe de família (purej) recebia um lote de terra (topu) para seu sustento e de sua família. O topu variava de acordo com a qualidade da terra e o tamanho da família. A produção era separada da seguinte forma: um terço para a subsistência e dois terços para o Estado.

O curaca era o chefe do ayllu. A capital do setor era sede dos armazéns estatais, do Templo do Sol e da Acllahuasi (para onde iam as Escolhidas ou Aclla, futuras sacerdotisas, concubinas ou esposas de aliados). O governador do sayo era o Tocricoc. O governador de toda a região (suyo) era o Apu, junto com um conselho imperial formado pelos governadores das províncias (huamani), os Suyuyoc-Apu. Este sistema era vertical e centralizado, cujo topo era o Inca, de vontade absoluta.

Ayllu

Comunidade composta de várias famílias cujos membros são de alguma forma parentes. Uma espécie de clã. São unidos por uma genealogia mítica, remontam sua origem a um ou vários antepassados remotos, sempre de origem sobrenatural, provenientes de uma caverna, lago, montanha, animal etc. Uma parte do território é de propriedade privada, os topu, e o resto é comum ao ayllu e explorada de forma coletiva. É um costume que existe desde muito antes do Império e resiste ainda durante o Vice-Reino, apesar de ter sido severamente afetado com a política das reduções indígenas.

Conquistas

Para expandir seus domínios, os incas aplicaram muitas vezes a persuasão e a diplomacia. Só quando esta era rechaçada ou em casos de nações rebeldes é que descarregavam seu poderio, causando sangrentas carnificinas. Mesmo depois de terminada a guerra, caso esta tenha sido difícil, executavam matanças.

Na tentativa diplomática, enviavam mensageiros que diziam querer tê-los como parentes e aliados. Enviavam presentes aos curacas e os tratavam com grande consideração. Os antigos chefes seguiam em seus postos ao lado de novos funcionários indicados pelo Inca. Impunham seu sistema de produção e de tributo. Não saqueavam nem arruinavam o território vencido e ainda ajudavam em seu desenvolvimento. Quando necessário, deslocavam gente da região para outra distante e substituíam por incas. Impunham seu idioma e suas crenças religiosas. Diziam que trabalhavam por mandato divino. Propagavam sua fé e ritos, erguendo nos principais centros um Templo do Sol e uma Acllahuasi. Para avisar sobre as rebeliões, além dos mensageiros (chasqui), eram acesas fogueiras no alto das montanhas. Quando o mensageiro chegava, o exército já estava reunido.

Exército

Todo adulto ou índio tributário era potencialmente um soldado, recrutado quando preciso. As lutas geralmente eram em épocas que os campos requeriam menor atividade. Havia também um núcleo de soldados permanentes. Os chefes se colocavam na primeira fila, mas, se um caísse, poderia provocar pânico na tropa e conseqüente debandada. As mulheres dos combatentes acompanhavam seus maridos nas campanhas, mas não nos combates. Fora o tamanho, era poderoso também por sua organização e disciplina.

As armas eram iguais entre as tribos da costa e das cordilheiras. Os soldados se vestiam normalmente. Os oficiais levavam uma espécie de elmo de madeira coroado com plumas. O exercício da guerra não era um ofício exclusivo aos homens, embora predominante, havendo esporadicamente na história do Império algumas mulheres de destaque. Os rebanhos de lhamas marchavam junto às tropas cerca de 20 km por dia.

A formação do exército era geralmente dividida em três partes, comandadas por dois chefes cada. Havia fundeiros (que atacam com a funda), arqueiros, portadores de macana e clava. Não faltavam instrumentos musicais como tambores, trombetas feitas de grandes caracóis marinhos e flautas. As batalhas eram em campo aberto.

Primeiro atacavam com as fundas (huaraca), arremessando pedras do tamanho de ovos ao soar das trombetas. Depois a luta corpo a corpo. A arma preferida não era o arco e flecha; os incas não o usavam por tradição, preferindo o combate direto ou a funda. Destacavam-se as macanas (porretes) e as clavas com pontas estreladas de pedra ou de metal; e os machados de combate, confeccionados com cobre, ouro ou prata.

Depois avançavam os lanceiros, com lanças pequenas de ponta de madeira ou de metal, que apoiavam sobre o braço esquerdo, que era coberto com uma grossa manta sobre a qual ajustavam a arma. Para a defesa pessoal, usavam pequenos escudos com franjas que reproduzem o emblema principal dos incas; elmo de madeira; e às vezes se protegiam com mantas de algodão acolchoadas. Em algumas regiões se pintava o rosto para aterrorizar o inimigo. Cantavam e gritavam ao atacar. Lutavam com as duas mãos.

Alguns prisioneiros eram levados a Cusco para serem humilhados nas celebrações de vitória. Alguns, o Inca pisava. Outros eram sacrificados ou reduzidos a Yana-Cuna. As mulheres eram feitas Yana-Cuna ou destinadas a concubinas. Os restos anatômicos do inimigo viravam instrumentos (a pele para tambores e ossos para flautas). O crânio se usava como cálice para beber o triunfo. Com os dentes eram feitos colares.

Colonização e Desenvolvimento

Os incas se preocupavam com o desenvolvimento dos povos conquistados e possíveis catástrofes naturais. Ensinavam técnicas de cultivo e urbanização e provia a região necessitada de recursos. Em caso de seca ou outros desastres, eram socorridos com os produtos do governo. Na falta de gado, mandavam tantas cabeças quanto necessário, e com instruções de como multiplicar o rebanho.

Estabeleciam seu culto e seus ritos em todo o Império, bem ao lado dos deuses locais, cujo culto não se proibia. A divindade do Sol era elemento central. As línguas locais também não eram proibidas, mas para os cargos públicos se dava preferência a quem falava quechua (a língua original dos incas). Geralmente, o chefe local era mantido junto com novos funcionários nomeados pelo Inca. Os obedientes eram recompensados com mulheres e objetos. Os filhos iam para Cusco aprender os costumes, língua e religião dos incas.

Grandes caminhos foram construídos, estabelecendo um gigantesco sistema viário. Pontes suspensas, túneis e escadarias lavradas nos penhascos. Por eles transitavam as tropas. De trecho em trecho havia tambos para descanso e provisões, cuja manutenção estava a cargo da população local.

Chasqui: corredores mensageiros, colocavam-se a cada 3 km nos caminhos, onde prestavam guarda contínua. Geralmente baseados nos tambos. Serviam exclusivamente aos interesses do Império.

 

Mitmac: grupos de pessoas ou famílias a quem se ordenava mudar para viver em províncias distantes. Aplicado em províncias rebeldes ou de possível rebeldia. Recebiam concessões que os liberavam provisoriamente de certos serviços. Também havia os mitmac por privilégio, incas que iam para a cidade conquistada com a missão de ajudar a estabelecer o Império.

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HISTÓRIA DO IMPÉRIO DO SOL

Apesar de possuírem uma agricultura altamente desenvolvida, as tribos serranas permaneciam em guerra constante. O objetivo era a obtenção de novos campos de cultivo e controle da água, pois necessitavam satisfazer uma população cada vez mais crescente. Volta e meia um grupo se sobressaía, mas todos tinham tradições e armas semelhantes. O desequilíbrio surgiu quando os incas derrotaram os vizinhos chancas, um século antes da chegada dos castelhanos. Império do Sol é o nome dado no jogo, mas os incas chamavam o seu império de Tahuantinsuyo (Quatro Regiões Unidas).

A origem dos incas é tão envolta em mitos e lendas que é difícil precisar qual que mais se aproxima da verdade. Muitos padres e intelectuais castelhanos tentaram em vão traçar uma linha histórica segura. Quanto mais ao passado se caminha, mais fantástica e pouco provável a história se torna.

O Mito dos Irmãos Ayar

Quatro irmãos de origem sobrenatural e suas respectivas mulheres-irmãs surgiram às margens do Lago Titicaca, de onde iniciaram sua peregrinação, enviados pelo Deus Sol com o objetivo de criar um povoado e ensinar ao povo das cordilheiras seus preceitos e leis. Eram eles: Ayar Manco (também conhecido como Manco Cápac), Ayar Auca, Ayar Uchu e Ayar Cachi. Eram elas: Mama Ocllo, Mama Guaco, Mama Ipacura e Mama Raua. Manco trazia consigo um falcão de nome Inti, venerado por todos e que lhe dava conselhos e poder. O objetivo era caminharem até uma região onde pudessem fincar na terra uma barra de ouro, sem que para isso fosse necessário qualquer esforço. Esta terra seria Cusco, capital do Tahuantinsuyo. Todo o percurso demorou anos, pois às vezes permaneciam num local por muito tempo. E assim ia aumentando o número de índios que os acompanhavam.

Ayar Cachi, poderoso e valente, era muito hábil com sua funda mágica, capaz de abrir vales e rasgar montanhas. Preocupados com o seu crescente poder, seus irmãos convenceram-no a voltar para a caverna de onde partiram para buscar algumas sementes especiais. Com ele foi o índio Tambochacay, instruído pelos irmãos Ayar para encerrar Cachi na caverna assim que nela entrasse. Como não estava com sua funda na ocasião, não conseguiu sair da armadilha. Porém, amaldiçoou Tambochacay, que acabou se transformando numa estátua de pedra. Desta forma, ninguém jamais soube como Tambochacay conseguiu que Cachi entrasse na caverna sem sua funda e onde ela se encontrava, perdida para sempre.

Manco se tornou o chefe dos incas e Ayar Uchu, o líder religioso. Enquanto efetuavam uma de suas longas paradas, Ayar Auca decidiu prosseguir. Acreditando ter encontrado a terra sagrada, voou até o lugar (de difícil acesso), mas foi transformado em pedra assim que tocou o solo mágico da montanha cuja localização é até hoje desconhecida.

Numa difícil passagem durante a viagem, Ayar Uchu ficou preso num deslizamento de pedras e não foi possível salvá-lo. Para preservar sua memória, foi erguido um templo no local, o Huanacauri. Mais tarde, finalmente encontram a terra sagrada. Uma série de lutas se seguiu contra os povoados locais. Mama Guaco se destacou nestes conflitos como uma feroz guerreira, brandindo sua temível boleadeira.

Manco Cápac fundou Cusco, se tornando o primeiro Inca, supostamente em 1200 d.C. Casou-se com sua irmã Mama Ocllo. Seu falcão, Inti, foi herdado por seus sucessores até Inca Yupanqui.

Sinchi Roca

Filho de Manco, iniciou seu governo em 1230, limitado à região de Cusco. Nasceu durante a peregrinação dos irmãos Ayar.

Lloque Yupanqui

Começou seu governo em 1260. Conquistou alguns territórios vizinhos, mas nada significativo.

Mayta Cápac

Segundo as lendas, nasceu com três meses de gestação. Limitou-se a manter o que os incas haviam conquistado até então.

Cápac Yupanqui

Começou seu governo em 1320. Foi o primeiro a sair dos limites cusquenhos, conquistando terras um pouco mais afastadas.

Inca Roca

Começou seu governo em 1350. A partir de Inca Roca é que os chefes incas passam a se destacar do resto da família. Cusco cresce e é desenvolvido o sistema de água encanada. Ocorrem várias conquistas vizinhas.

Yahuar Huaca

Tornou-se Inca em 1380. Seu nome significa “Chora Sangue”, pois, quando foi raptado na infância, seus olhos derramaram gotas de sangue. Acabou se casando com a filha de seus raptores. Conquistou alguns povoados e enfrentou rebeliões internas.

Hatun Topa

Tornou-se Inca em 1410. Acabou com todas as revoltas. Foi o primeiro Inca a ter ambições imperialistas. Na decisiva guerra contra os chancas, que definiu o destino dos povos serranos, não conseguiu evitar, devido à idade, que seus inimigos invadissem Cusco. Teve que abdicar.

Inca Yupanqui

O mais importante inca depois de Manco Cápac. Fundou o Tahuantinsuyo. Tornou-se Inca em 1438. Quando seu pai, Hatun Topa, abandonou Cusco, Yupanqui decidiu ficar para defendê-la. Acabou expulsando os invasores. Depois, persegue e derrota os chancas com a ajuda sobrenatural dos Pururaucas. Seu pai tinha abdicado em nome de seu irmão Urco, mas Yupanqui toma o poder com o apoio do exército e passa a se chamar Pachacuti, o Transformador do Mundo. Ao sul, dominou os aymarás. Com o filho Topa Inca, subjugou todas as tribos serranas até o Equador. Organizou uma expedição marítima onde descobriu ilhas com muito ouro e habitada por negros. Topa Inca, que chefiou a expedição, foi acompanhado por Antarqui, um grande bruxo que diziam ter a capacidade de voar. A viagem durou quase um ano, com mais de 20 mil soldados em balsas. Retornando a Cusco, conquistou o reino Chimou.

Topa Inca

Tornou-se Inca em 1471. Conquistou quase toda a cordilheira oriental e algumas áreas da terra dos Araucos (e também tiveram problemas com eles). Aprofundou a organização imperial criada por seu pai. Organizou expedições à selva.

Huayna Cápac

Tornou-se Inca em 1493. Viu-se às voltas com inúmeras revoltas. Conseguiu manter o Império através de sangrentos castigos. Mandou degolar 15 mil índios que se recusaram a depor sua rebeldia, mesmo depois de vencidos. Consolidou algumas conquistas no extremo norte do Império. Na cordilheira oriental, as fronteiras foram ameaçadas por um ataque de índios de origem Maoári, acompanhados por alguns castelhanos vindos do sul (que ignoravam as ações dos conquistadores castelhanos que chegavam pelo norte e desconheciam a verdadeira riqueza da região), mas foram abatidos pelas forças imperiais. Morreu em 1525, possivelmente de varíola. Durante o seu governo, desagradou a elite sacerdotal de Cusco ao se ausentar por muito tempo da cidade sagrada. Este fato foi importante para a guerra que se seguiu.

Huáscar x Atahuallpa

A luta pelo poder durou até as vésperas da conquista. Huayna deixou vários filhos, mas apenas estes dois disputaram o trono. Huáscar era o encarregado do governo em Cusco enquanto seu pai viajava com Atahuallpa. Antes de morrer, escolheu Ninan Cuyuch como seu herdeiro. Mas Cuyuch morreu da mesma doença que o pai antes de receber a notícia. Então, Huáscar se tornou Inca em Cusco, enquanto Atahuallpa reivindicava o trono através do prestígio que tinha entre os militares. Atahuallpa ganhou a luta, matou a família de Huáscar e o prendeu. Enquanto viajava para Cajamarca para se tornar Inca, foi capturado pelos castelhanos. Da prisão, mandou matar Huáscar.

Published in: on 12 de março de 2010 at 0:57  Comments (3)